Domingo

Quase...




Branco é a cor...
O agudo acento
a imperar nos trajes...
E nas flores
levadas pelo mar.

Paz, ele sugere...

Contritos, circunflexos,
homens e mulheres
cavam buracos na areia...
Protegem do vento
a chama das velas, -
acesos travessões na vertical
do tempo...
Conexão com o divino?

Nessa noite,
as praias estão assim...
Templo de diversões,
parque de orações,
onde tudo que há de melhor
se aguarda...

A esperança embriaga.
Tem que haver alguma coisa
errada
numa história que começa
por números
contados de trás para frente,
ainda que soem
em palavras;
em alegres parênteses!...

Abraços, apertos de mãos, beijos...
- achados e perdidos
nessa fenda do tempo...
Indivíduos sem ego,
ao menos sob esse céu
de metáforas brilhantes e coloridas, -
traduzidas
em incontidas exclamações...

Quem quer,
ou consegue,
lembrar que, nesse mesmo momento,
muitos nem têm um céu para olhar?...
Apenas choram a falta de estrela?...
Quem?...

Ah!... Isso... Agora não!

Essa é a hora
do todos com todos
que, no frigir dos povos,
são só alguns...
Este é o tempo,
em que não cabe
vírgula
ou interrogação.

O instante
em que sapatos
estão calçando mãos!

Tudo que esses pés
descalços, livres, desejam
é pisar as ainda úmidas reticências, -
incontáveis grãos de dúvidas...
Se possível, esquecê-las.

Quem quer saber
que ontem,
o hoje foi o amanhã...
Quem?...

Orgasmos...
foram feitos para serem sentidos.
Momento fugaz
em que muito prazer,
e alguma paz,
se alcança...

O ponto
é desse encontro...
Só dele.
E ponto.

O músculo que pulsa
é um outro coração.
Um qualquer...
Tocado por tamanha emoção,
é artigo indefinido...

Só há espaço
para o que é bonito.
Nenhuma verdade feia
pode se dar ao luxo
de aparecer...
logo agora!?

Assim, dá-se um passa fora
nas aspas indesejáveis,
nas hipérboles
fora de hora,...

e o ontem vai-se
repetindo...

ju rigoni (1999)


Desejo-lhe um Ano realmente Novo, -
num mundo mais solidário,
mais humano,
mais justo.

Bjs e inté!

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Sábado

Natá...



Indé novembro,
e o estômbo,
cheio de espaço e de ronco,
sente o xêro de dezembro...

Hummmm! Coisa mais boa!...
Pru mim e pru mínia famía
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...

No Natá se come muntio,
todo mundo qué ajudá, -
o pobrema é os ôtro dia...

É só no Natá que nóis pode
enchê muntio bem as pança.
Nos ôtro dia do ano
nóis cata resto no lixo,
nóis come terra, rebôco,
nóis põe carqué coisa na boca,
e mastiga o que num tem,
que graças a Nosso Sinhô,
imaginaçaum num farta
i inté faz muntio bem
pro má de comida parca.

No Natá se come muntio,
graças a vige Maria
e o anjo anunciadô, -
graças a nosso sinhô!

As pança é só verme filiz...

As criança fica dioida
só de vê as comidada,
inda ganhum brinquedo, -
livrim, boneca, bola...
é uma aligria danada!

O pobrema dos minino
é qui eles num sabe brincá;
ganha os brinquedo em dezembro,
veve cum eles na boca,
e nem bem é feverêro
e já tudo comêrum!

O Natá é cumê bem
e rezá pra chegá vivo
no Natá do ano que vem...

Pru mim e pru mínia famía,
Nosso Sinhô Jesus Cristo
pudia nascê todo dia...

ju rigoni (1993)




BOAS FESTAS
E
FELIZ 2010
!

Que Deus nos abençoe,
e nos conceda a graça de viver
num mundo mais solidário,
mais humano,
mais justo.

Beijo, abraço apertado, e inté!




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Domingo

Da Viagem e Seus Extravios...




Fosse adeus ou até logo,
toda partida era aborto.

E parto...
Eu, dando à luz a louca
que me delicia
e mata...

Eu, a janela,...
a porta,...
o porto...
A curiosidade
que transmuda...

Em toda partida
morri um pouco...

Afogada nos sorrisos
banhados em lágrimas,
apartei e apertei corações,
atei e desatei laços...
Toda partida me repartia
em desiguais pedaços,
houvesse, ou não,
a estação,
os beijos,
os abraços...

Partia
e me repartia
na saudade
que me consumia...
antes mesmo
do tempo de sentir
saudade.

Partia e partia-me
no repartir sacrifícios...
Sem avaliar
princípios ou fins,
dividia-me
entre o fim e o princípio...

Misturava tintas
de cores pálidas
sem qualquer talento
para combiná-las...
Transparecia...

Eu e minhas artes...

Bicho-carpinteiro,
praga,
tentando entalhar a vida...
Madeira-de-dar-em-doido...

Partia
para renascer,
preparar-me,
e partir, de novo...

E às vezes penso
que partia e parto
porque, ainda que haja dor,
partir nunca foi o último,
e, sim, o primeiro ato, -
do espetáculo que desafia.

Entre partidas
e chegadas,
desenho cenários,
ensaio,
leio e releio
o texto que não se decora.

E vou indo,...
indo,
indo,...
cultivando infinitos
no meu minifúndio,
aprendendo o mel
e o fel
deste meu hemisfério,
e assim, - quem sabe? -,
desvendando o mistério
que me habita...

Cedo ou tarde,
(tomara, bem mais tarde)
a indesejada linha de chegada...
que é partida,
e que não se reparte.

O inevitável eu
comigo...

ju rigoni (2000)

Foto-Arte: Bernardo Castanho

Amigos,

Consegui, ontem, mudar o post do Dormentes, blogue onde tento reproduzir e, às vezes, misturar os falares interioranos de diferentes regiões do país, que esbanjam harmonia, beleza, sedução, e pelos quais tenho grande fascínio. Mudei também o post do Navegando...

Obrigada pela sua visita! Bjs, e até a próxima semana!

Ponto Final




Nuvens negras
passeiam pelo céu da boca.
Tentam guardar
o que não se guarda...

E o sangue... ferve.

Pensamento é relâmpago
que anuncia o trovão
da palavra que fere.

Santa Bárbara!
Melhor cobrir os espelhos...

O vento é forte,
poderoso...
Tornado em liberdade...
Não! Não há natureza
capaz de evitar
essa tempestade.

O passado,
antes represado,
desaba...
Enxurrada de agressões, -
acusações, impropérios...

Raios os partem,
e repartem...
entre vírgulas,
exclamações,
interrogações,
irônicas reticências...

O líquido a escorrer
pelo rosto
afoga sonhos
no sal
de sabor estranho...

Por onde andará
a brisa refrescante
das doces metáforas?...


Dedos em riste,
vogais alongadas,
pronomes possessivos,
verbos no imperativo, -
armas...
mirando e atingindo o alvo.

De repente,"nunca mais"...

Alguém a arrumar as malas
e olhos que, mais uma vez,
chovem...
copiosamente.

(Não se deve chorar
as mesmas lágrimas...
- A fila anda! - diria Heráclito.)


Lá fora, ainda é manhã.
Dentro do quarto, é tarde.

Muito tarde...

ju rigoni (2002)

Foto: Bernardo Castanho

Amigos,

alguns comentários deste blogue estão desaparecidos. Provavelmente algum problema no Blogger... Não entendo nada disto. (Você entende? Então, diga-me!) Por enquanto, tudo que posso fazer é pedir desculpas aos amigos cujos comentários estão temporáriamente, espero, sumidos. Andei pesquisando por aí, mas até agora nada funcionou.

Bjos, e até a próxima semana.


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Parábolas



Quarenta dias no deserto
e ei-lo desperto,
mas ainda ao chão.

Levanta-te e anda! -
ordena o poeta ao poema…
E a palavra se cumpre.

Infinitos poemas
em um só...

Num mesmo poema,
o poema do poeta
e o poema
que o leitor interpreta.

Num mesmo poema
universos estranhos
ao seu autor…
e tão íntimos
do mais íntimo
de cada leitor…

O autor lambe
e libera a cria
e o leitor a recria -
somando poesia
a poesia.

Um poema
é pão e é vinho, -
é milagre da multiplicação,
o milagre dos milagres.

O autor de um poema
é papel em seu papel.
Ferramenta que desperta
inconscientes poetas
sob um conhecimento
formal ou mutilado,
ou, na falta deles, na agonia
do parco entendimento…
na simplicidade de um saber
que é pura emoção.

Ao escrever um poema
o poeta comete o pecado
da sedução, -
conduzir o leitor
para dentro de si mesmo
a desvendar,
revelar
sua própria e latente poesia.

Poemas não têm asas,
poemas são asas…
De grande envergadura.
Revestidas das penas da liberdade…
de interpretação, -
vôos
acima, abaixo, ou ao nível
da intenção do autor
de um poema.

Um poema é sol
a lançar sua luz
em maior ou menor intensidade.
É possível sabê-lo
sem sequer olhar para ele.
É possível tê-lo diante dos olhos
e não vê-lo.

Poemas não são bons filhos, -
à casa jamais tornarão.
Não como dela saíram…

Já não sabe o poeta
por onde anda o poema…
aquele poema…
o seu poema…
o poema que escreveu.

Atingido
por uma, dez, mil…
experiências diferentes -
desavisadamente poéticas -,
perdeu-se
onde devem perder-se
todos os poemas
do mundo…

Levanta-te
e anda!

ju rigoni (1992)

Foto Mell

Parábolas foi publicada há algum tempo no Fundo de Mim que está hospedado no wordpress. Em razão de alguns e-mails de amigos que recebi na semana que passou, e que expunham uma interpretação muito diferente da minha ao escrever alguns textos poéticos, inclusive o da semana passada, achei que seria um momento adequado para republicá-lo, desta vez, aqui, no Fundo de Mim II.

Um grande beijo aos que me lêem e, mais uma vez, um pedido de desculpas pelo fato de não estar conseguindo visitar a todos com a frequência que gostaria. Mas sempre que sobra um tempinho leio todo mundo lá no reader. Espero que no próximo ano eu possa estar mais presente. Até a próxima semana!


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Segunda-feira

Aspiração...




Vez em quando olha as estrelas
e às vezes, -
não raramente -,
é olhado por elas
tão generosamente
que supõe alcançá-las...

Algum brilho
sempre lhe caiu bem...

No mágico tormento
percebe que toda beleza,
toda tristeza, toda alegria,
guardam luz e escuridão
em desigual proporção...

O corpo é só movimento...
Quem o controla?...
O pensamento cintila...
apaga-acende-apaga...
Não! Sim! Não!...

Em tempo,
dá-se conta
dos pés sobre o chão...

Rende-se à própria natureza, -
ao ouro da contemplação
registrada a caneta
no infinito branco do papel, -
agora, mais que um canudo...
Tudo!
Céu... a cafungar palavras,
que brilham outro brilho...
...a reac(s)ender a própria
e decadente estrela...

ju rigoni (1993)


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Sábado

Acento




Cedo ao desejo
e bem devagarzinho,
o gesto bem leve,
estendo-lhe o dedo.

Ele tremelica
no galho espinhento
e sem perda de tempo
ganha o azul.

Pancinha amarela,
voando ligeiro
ao encontro do par,
o bichinho inquieto
pousa no fio
que me liga ao mundo.

Eles cantam...
e seu canto dá conta
da minha vida...

ju rigoni (Anos 70)


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Domingo

Fresta




Fresta

Olhar para dentro...
Experimentar o silêncio
mais profundo, -
submergir na escuridão
que cega...
tamanha é a luz
das suas respostas...

Olhar para dentro...
Revelar-se infinito,
onipotente,
e banhado em veneno,
finalmente,
perder-se
deste pequeno mundo
pequeno...

ju rigoni (1988)


Foto Mell.


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Algum Bálsamo...



Debruçada à janela,
ouço a conversa da passarada, -
o alerta do bem-te-vi,
a pirraça do quero-quero...

Sem controle-remoto,
assisto ao divino
e colorido programa, -
alguma festa
para os meus olhos cansados...

Pequenos grandes agrados
da natureza...
Criaturinhas frágeis, lindas,
indefesas, -
de descomunal beleza -,
a enfeitar a imensidão azul.

Procuram o que lhes sobra...
Pequenas ilhas de verde
no mar de cimento e telhados
que ocupam, desordenadamente,
o lugar onde, no passado,
só havia árvores,
flores, frutos... ninhos...

Lá, um pouco mais distante,
à beira da lagoa,
estão as garças
e suas pernas fininhas,
em suas poses estáticas,
aparentemente distraídas,
como a esperar um salvador, -
alguém que lhes devolva
orla e águas despoluídas...

Subitamente, levantam vôo...
Ganham altura incomum...

De lá, do alto,
podem ver o predador
no tamanho que merece...

ju rigoni (2001)


Foto Mell


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Sábado

De Circo...




Ontem fui o trapezista
a voar sem asas,
sem medo, sem rede...
Dancei... feito a bailarina...
Hoje sou mais...
O palhaço equilibrista
que anda e salta
sobre a corda-bamba...

Nunca fui domador...
Nem domada!...
Chicotes não merecem
o calor do aplauso...

Em meus lúdicos solavancos
sou mais que saltimbanco...
Sou a dona dos meus riscos...
Sou o respeitável público
que vive sob a minha lona...

Palma(tória)s pra mim...

ju rigoni (1979)


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Domingo

Poética Rotina



A barca atraca,
desembarco,
e na Praça XV,
em meio a tanta gente,
mais corro do que ando...
A visão do Paço Imperial
sempre é sol do meio dia
no início das minhas manhãs...
Tenho pressa e aperto o passo
em direção à Primeiro de Março...

Atravesso a rua
junto ao sinal fechado
em meio ao burburinho matinal
que assola o Centro do Rio.
Buzinas, sirenes, apitos de guardas,
gente montando barracas...

Já na Sete de Setembro,
a porta lateral da igreja
expõe o fiel a orar
e tocar os pés do Cristo
Crucificado.
Mas, não há tempo
para um ato de fé
e sigo meu caminho...

Gente igualmente apressada
passa por mim,
enquanto o comércio abre as portas
ao novo dia...

De longe,
noto a lentidão dos veículos
que transitam na Rio Branco...
Agora, mais perto, posso ver
a mulher a chorar,
a polícia a cobrir o morto,
paramédicos sem função...
Lá se vai meu bom-humor...

Quase impossível
atravessar a Avenida aqui...
Dobro à direita...

Na esquina da Rua do Ouvidor,
parado à porta do banco,
um homem e seu saxofone,
(também já o vi no metrô),
sopram no ar um Pixinguinha
e me devolvem o fôlego...
Sigo um pouco mais feliz,
embora ainda não seja cicatriz
a primeira ferida do dia...

Viajo em meus pensamentos...
Lá, acima de todo este movimento, -
do casario antigo, dos arranha-céus -,
destes monumentos em cimento,
tudo é muito azul...
Além disto, eu sempre sei
de que lado fica o mar...

"Meu coração,
não sei porque,
bate feliz quando te vê..."

Dobro à esquerda
na Gonçalves Dias, -
a música cada vez mais longe -,
já não estou tão ansiosa...
Ali, à frente, a Colombo,
a confeitar esta História...
Quanta poesia há no Centro
da cidade maravilhosa...

Eu amo este burburinho...
Esta gente bonita, inquieta,
a correr atrás da vida...
Eu amo o Centro do Rio!
Este contraste
entre a modernidade e o antigo, -
sempre a melhor novidade...
Os museus, as igrejas,
os teatros,
a tradição que tempera
bares e restaurantes
a desdenhar o futuro
que todo dia é passado...

Aqui e ali, os ambulantes,
o rapa, a correria,
polícia reprimindo pirataria...
Pessoas a namorar vitrines;
os "mulas" puxando suas cargas;
os turistas, suas câmeras,
suas roupas coloridas,
seus olhares e sorrisos curiosos...
Executivos e suas pastas,
executados pelo calor tropical,
em seus ternos, colarinhos, gravatas...
Mulheres, muitas mulheres,
prontas para enfrentar
mais um dia de trabalho...
Muitas delas a marcar -
no tec-tec
do salto fino dos sapatos
nas pedrinhas portuguesas -
o rítmo acelerado
da poesia que pulsa
neste grande coração...

O Centro do Rio é isto
e o muito
que não está neste trajeto...
O Mercado das Flores,
o Museu Nacional de Belas Artes,
a Saara,
o Largo da Carioca,
o Amarelinho,
o Teatro Municipal,
a Biblioteca Nacional,
a Acad...

Pena... Cheguei!

- Ei! Por favor,
segure o elevador...

- Bom dia!

ju rigoni (sem registro de data)


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Todo Dia é Dia de Todas as Crianças...


Lápis seco e lápis aquarelável.

Elas chupam peitos murchos, secos,
comem reboco esfarelado à unha,
reviram lixo de fast foods...
Nos sinais fechados,
ainda que honestas,
assustadas,
descobrem-se o medo
que salta dos olhos do cidadão;
estendem as mãos
nas portas de igrejas,
debaixo de viadutos...
Em alguns lugares do mundo
são mantidas em áreas delimitadas,
preservadas,
como animais em extinção...

Extinção?!

Criança com fome
não "é um problema do Estado"
como gritam os incomodados
pela pequenina mão que lhe é estendida...
Todo Estado é os seus cidadãos,
Todo poder é dado...

Criança com fome
é o retrato mais fiel
dos desgovernos do mundo...
Vergonha é artigo que faz falta
mas nunca está em alta;
magrinha, anoréxica,
a vergonha come, sim,
mas vomita...

Criança com fome é novela que não tem fim
tal é a cara-de-pau dos seus patrocinadores...
Criança com fome é artista ao avesso, -
anônima celebridade...

Vamos falar a verdade:
criança com fome é produto.
Quanto mais pele e osso, -
tanto mais frágil é o corpo -,
maior o lucro dos inescrupulosos...
Criança com fome é a melhor retórica,
o mais eficaz discurso.

Se esquecimento é morte
não há momento para a denúncia;
criança com fome
tem que ser a notícia de todos os dias...
Até que não haja no mundo
uma única criança faminta.

Criança com fome é campanha bonita, -
o melhor slogan, o conceito que toca...
Mas criança não come só no Natal,
ou no almoço eleitoreiro
onde é o prato principal. Não...
Criança tem fome o ano inteiro!

Desde que o mundo é este mundo,
está na cara!,
(e na coroa),
criança com fome é alimento;
de janeiro a janeiro o melhor investimento.

Haveria esperança...
se criança com fome
não enchesse o prato
em que comem
"eles"
e seus filhos, -
que são ou já foram crianças...


ju rigoni (1997)


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Meu País




Meu país é essa gente diferente
de tudo que se conhece...
Essa espontaneidade,
essa liberdade de sentir
e explodir com vontade...

Em meu país
nunca faltou emoção;
é pelo coração de sua gente
que se mede
toda conquista do meu país...

Sempre à espera,
o coração do brasileiro,
é bumbo na marcação,
pronto para entrar
na avenida da vida
e, finalmente,
ser parte do mundo...

Meu país não é só lágrima, -
também é alegria...
Danem-se as faltas,
e toda essa agonia...
Se a hora é de sorrir,
sonhar, acreditar,
danem-se
os outros jogos,
ainda que, neles,
o povo se dane...

- Agora, sim! Tudo vai melhorar...

Quem não entende a gente
do meu país
nunca há de compreender
que a vida é feita de momentos, -
nunca há de ser feliz...

ju rigoni

Foto Gilberto Franco


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Segunda-feira

Reflexões Pós-Comícios



Quanta verdade existe
na palavra verdade,
se há sempre
mais de uma verdade
para cada verdade?...

A verdade é uma janela
aberta pela metade.
Verdades inteiras,
hoje, são meias verdades...

Uma verdade para cada um,
uma verdade para cada verdade...
Verdades não têm mais
a luz de um sol de meio-dia...
Verdades verdadeiras?!
Sonhos... Utopias.

Dia haverá em que a verdade
dividir-se-á
em tantas e tantas metades
que deixará de ser verdade
para ser só saudade...

E, então,
se ela ressurgir inteira,
em todo o seu brilho,
com jeito e aparato
de celebridade,
quem há de acreditar
tratar-se de uma verdade?

A verdade que aí está,
a confundir novas gerações,
vive sob curiosa mira, -
sofre estranhas mutações...
Verdade é significante
de sagrado significado,
profanado pelas longas,
muito longas,
pernas da mentira
sob os espessos véus
da promessa...

O que se vê
não é bem aquilo que se vê...
O que se ouve
não é exatamente o que se ouve...

Ora, quem sou eu?...
Quem é você?...
Quem sabe, os últimos seres
capazes de alguma resposta
a lacunas
que as próximas gerações,
talvez, não tenham a chance
de preencher...

Atenção, muita atenção,
à verdade que sobe aos palanques,
que sai das bocas,
dos olhos,
dos gestos,
dos sorrisos...
A verdade mais próxima
da verdade
não se pode ver ou ouvir...
Está nos cochichos
ao pé-do-ouvido...

Verdade é verdade
em qualquer tempo,
em qualquer lugar,
mas, embora a verdade,
de verdade,
não tenha hora ou fronteiras,
aqui, ali, acolá,
está sempre sob uma bandeira...

A verdade é que a verdade
foi transmudada
muitas, muitas, vezes...
Multiplicou-se,
e, dela, há tantas espécies
que, talvez,
seja a única palavra
que, em qualquer Língua,
jamais sofrerá extinção,...

embora sua natureza
esteja morta...

ju rigoni (2002)


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Notas de Trincheira




Ternura,...
...palavra tão antiga!
Brandura, suavidade,
meiguice, carinho...
"Quanta breguice!"

"Ternura...
cabe em letra de bolero,
não nos versos
dos novos dias..."

Tão belo significado,
assim,... ignorado,
jogado no esquecimento...
Nem todo afeto
exige furor, fulgor,
arrebatamento!

Ternura...
Morreu, coitada!
Morreu
de morte matada.

Perdeu-se,
na aspereza de um mundo
onde nada é mais importante
do que erguer
ou aparentar fortaleza...

Ternura, ternura, ternura...
Escrever, descrever...
Reaprender...
Sentir...
para jamais esquecer...

Ternura...

ju rigoni (1992)

Foto Mell


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Domingo

Equívoco




Conheço teus sonhos,
tuas certezas,
teus medos...
Conheço o poder
da tua imaginação, -
todas as tuas luas,
tudo que corre pelas tuas veias, -
todas as ruas, todos os becos,
tudo que se atravessa no caminho
do teu coração...

Ora, se conheço!...

De ti conheço também
um dos mais bem guardados segredos...
Aquele que te divide em dois...
Não creio que saibas
qual a tua melhor metade...
Fortes, fascinantes, imensuráveis, -
metades que revelam o teu norte.
Eu sei, simplesmente sei...

...

Espera!...
Alguma coisa está errada...

Reparto o teu segredo
em duas partes...
Conheço, sim, o que deixaste escapar...
Deve haver mais... Tem que haver...
Pronto! Admito:
não sei dizer em quantas partes
cada uma das tuas partes
se reparte...

Conhecer-te?...
Que pretensão!

ju rigoni
(sem registro de data)

Foto Mell


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Segunda-feira

Letargia...




Dorme...
Há um mundo que dorme
um sono fora de hora...
Não há grito que o acorde,
nem acordo que o transforme...

Dia vai, dia vem,
entre os tantos que mantêm-se despertos
porque não têm direito ao sono, -
não sonham acordados,
nem sabem o que é sonho... -
cresce, em vão,
a consciência de uns poucos
que quase nada podem fazer...
Triste fado!...

Os olhos,
os braços e as mãos
que deveriam estender-se
em seu socorro
estão sob os mantos...
Não apenas dormem,
refestelam-se
em seus oníricos achados,
estes sim, sempre realizados, -
um mundo que ronca
para comemorar o seu sono...

Dorme...
Há um mundo que dorme
como se acordado estivesse...
E um outro que morre
sem sequer saber o que é sonho...

Deve haver,
tem que haver,
alguma fenda no tempo, -
algum príncipe
feito de amor e justiça, -
nobreza de sentimentos -
que não negue o beijo
que desperta e salva...

ju rigoni (sem registro de data)

Foto Mell


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Domingo

Meu Mar...




Até hoje não consigo explicar
esta minha paixão...

Não sei se é o balé das águas...
Talvez seja o som... A cor!...
Sei que é uma visão
que inunda o meu pensamento, -
afoga a minha razão...
Livre e leve
flutuo na imaginação, -
as emoções ao vento...

Não!
Não sou dona de mim
quando, diante do mar,
tudo que mora aqui dentro
insiste em vir à tona...

Sou criatura marinha,
embora a pele sem escamas...
Sim, não nado em cardumes;
minha sina é fugir das redes...
Mas, doce é a sede que vem do sal
que tempera essas águas, -
como é possível tanta beleza
ter sabor de lágrimas?!...

Nem dia, nem hora...
Ah, o mar é sempre tão lindo!
Na aurora, ao por-do sol,
ou sob o negrume da noite...
Chuva, raio, trovão...
Calmaria ou tempestade,
nada é capaz de abalar
a sua majestade.
Lá está... poderoso...
em dias de sim e de não.
Ondas de poesia
a lamber a areia,
rejuntar-me os grãos...

Ah, o mar...
Meu chão
é feito de água...

Não!
Não sei o que me dá
quando me falta o ar
e, para respirar,
mergulho minh' alma no mar...

ju rigoni (2003)

Foto Mell.


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Devoção




Sementes repousam
na palma da mão calejada...
Florestas inteiras, -
gerações e gerações
de árvores
frondosas e parideiras,
acomodam-se indefesas
no calor, na aspereza
da mão, íntima da terra.

De calos e bênçãos
é feita a mão
que apura a semeadura,...
que não renega a ternura,
a beleza do encontro
da semente com a terra.

Deita-as ao leito sagrado,
e, em regas, o amor se faz...
Grãos intumescidos,
espasmos da germinação,
brotação... em direção à luz.
Raízes buscam debaixo do chão,
útero em gestação,
seus próprios caminhos...

Nobre é a mão suada, rude,
que conhece o cabo da enxada;
a mão que segura e semeia
a grandeza da natureza;
a mão que, na lida,
é sabedoria e presteza...
A mão que reaviva
as lições esquecidas...

Ah, como é prudente
plantar boas sementes...
Amar, respeitar... compreender
a simplicidade da vida...

ju rigoni (1998)


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Almas Empedradas...




Tiro pela culatra,
faca de dois gumes,
arma aspirada
no cachimbo improvisado...
Dez a quinze segundos
percorrendo o caminho sem volta...
Neurônios virando nada...

Crack
não é apenas uma idéia
que desarranja idéias...
Não é só onomatopeia, -
o som de pedras
queimando muito mais
que dinheiro...

Crack
é o lixo da cocaína.
É a merda como sina!

Não há tempo
para réplicas,
tréplicas,
súplicas...
Se a lei
não se reconhece
em sua própria palavra,
reescreva-se a lei
para tratar
mesmo àquele
que não quer ser tratado!

Crack
vida dura, partida ao meio
num meio que não é meio,
e sim precipício...
De um lado,
a impotência do Estado.
Do outro,
as consequências do vício.
O peso de uma pedrinha
é fardo muito pesado
no fado
de quem quer que seja, -
ricos ou pobres,
viciados ou não...
Desgraça pouca é bobagem!...

Pelas ruas, desprotegido,
braços dados com o medo,
até mesmo quem não conhece
a escravidão dessa droga,
está sob o seu jugo,
e precisa jogar o jogo...
O prêmio? Manter-se vivo.

Crack...
a palavra é pequena
mas é grande o estrago, -
craca que se alastra no casco
de uma sociedade
sem preparo para enfrentar
esta nova idade da pedra.

Cérebros algemados
pela ignorância...
corrompidos pela promessa
de prazer fácil...
O vício,
esse torto amante,
erra pelas ruas
impondo ao que já é grande
a estatura de um gigante...
que não para de crescer.

Quantas pedras ainda
serão colocadas sobre este assunto?
Quantos defuntos
estão deitados sob essas pedras?...

Custa apenas uns poucos reais
esse prazer de morrer...
e matar por nada...
Matar pelo barato de morrer...

Um barato muito caro...
Muito caro.

ju rigoni (sem registro de data)


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