domingo, janeiro 16, 2011

Palavras ao Desabrigo...

.

A lama que se mistura à lama
que soterra cidadãos e cidades
não se compõe só de terra, argila e água...
Deixa manchas indeléveis, -
não saem com água e sabão...

Capricho da natureza?
Da natureza de alguns homens...
Décadas e décadas, indiferentes
a tragédias sempre esperadas...
E eis que, ilesa,
respira forte a tragédia anunciada;
eis a sobrevivente.

É lama que precede a lama.
É lama profundamente infiltrada
em assoreadas mentes, - em terrenos
desordenadamente ocupados
pelo lixo imperecível
que antecede e sucede
o explorado espetáculo macabro
das enchentes...

Seria bem-vinda alguma coragem,
alguma barragem capaz de conter
o imediatismo, a paliativa solução, -
o comodismo, a hipocrisia
de atribuir a culpa
à mãe-natureza,
ou à ignorância do cidadão.

Não se constrói o futuro
nas encostas do descaso;
nos rios assoreados pelo desinteresse.
O amanhã que se prometeu,
mas se deixou para amanhã
nunca foi resgatado...

Até quando essa enxurrada de lágrimas
a inundar faces em desespero?
Até quando esse hoje
que é ontem?...

Já não há lugar na memória
para tanta tristeza, para tanta dor, -
para histórias que não deveriam
mas, aqui ou ali,
no ano que vem,
em maior ou menor proporção,
infelizmente,
hão de se repetir.

Verão...

ju rigoni


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21 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

e a falta que a sua poesia incisiva estava fazendo? E quem disse que a poesia não é um canal legítimo e potente de denunciar, de expor aquilo que nos abre a alma? E quem dizze que vc pode sumir por muito tempo, heim???? Fica bem aí e não some, que amo ler vc!
Beijos,

Andrea de Godoy Neto disse...

Ju, que saudades dos teus versos! Mesmo que venham assim, trazidos pela dor da tragédia, mas reflexivos, incisivos, na crua realidade de que nós, homens, somos criadores de catástrofes.

que tenhamos clareza e equilíbrio, para vivenciarmos aquilo que virá.

um beijo grande, poeta!

Tais Luso de Carvalho disse...

Ju, querida, só posso dizer que tuas palavras são as minhas ou vice-versa: escrevemos a mesma coisa: você em versos e eu em prosa! É isso, amiga: o descaso de poucos causa a dor de muitos. Entendi tão bem seu recado! Vamos ver no que vai dar isso tudo, já que ir empurrando é a solução para todos os problemas de enchentes, e em todas as regiões do nosso país.

Penso, porém, que tragédia igual a esta eu jamais vi por aqui; contamos muito com nosso povo, sofrido e solidário. É um crime deixar que comunidades se aglutinem nos morros ou ao pé deles. Há solução? É óbvio, basta querer fazer.

Meu carinho pra você.
Tais Luso

Ana Claudia disse...

Um lamento, um lamento por tudo isso que acontece durante nossas chuvas.

Nilson Barcelli disse...

"Capricho da natureza?
Da natureza de alguns homens...
Décadas e décadas, indiferentes
a tragédias sempre esperadas..."
Ju, o teu excelente poema colocou o dedo na ferida. O homem pode dominar a natureza, mas, mais cedo ou mais tarde, ela acaba por vencer...
Parabéns pelo poema, foste brilhante e oportuna.
Um abraço solidário para todo o povo brasileiro que sofre.
Beijos, querida amiga Ju.

Estela disse...

Muito bem colocado, muito bem escrito e bastante lúcido e verdadeiro..
Bjs.

Graça Pereira disse...

Poema, revolta, lamento, tristeza e...palavras que falam!! Lindo!
Beijo e boa semana
Graça

angela disse...

Perfeito amiga, perfeito.
Não há o que acrescentar.
Eles sabem muito bem que nossas encostas não suportam ficar sem a mata, é só ver o que fazem quando constroem as estradas, muros de contenção, grama por todo lado.
O poema está lindo embora a realidade seja muito feia e triste.
beijos

Daniela Figueiredo disse...

Ju!
Lindo poema para esse momento tão triste no Rio de Janeiro.
Também estou sumida, com blog meio largado, esquecido... Um feliz 2011 pra ti, que seja um ano de muita alegria, saúde e paz.
Beijos, estava com saudades tuas!

Ariadna Garibaldi disse...

Ju
Palavra so desabrigo é um poema tão tocante quando verdadeiro. Um lamento, um pranto, um acalanto. Você, como sempre inspiradíssima! Amo ler-te!

Ariadna

Marise Ribeiro disse...

Ju, atrasada para lhe desejar um feliz retorno, mas recompensada pelo poema que acabei de ler. A realidade escorre em tristes imagens, mas as paisagens do amanhã hão de pintar em verde a esperança do recomeço.
Beijos,
Marise

Colecionadora de Silêncios disse...

Olá, querida.

O seu poema me deixou emocionada. Que lindo e triste ao mesmo tempo! Até quando teremos que ver essa cena se repetir, não é mesmo? Triste...

Beijos

Eliane F.C.Lima disse...

Ju,
A emoção da dor alheia faz a poeta enxergar, no meio da lama, a palavra poética. E lavá-la, mas da lama moral que, de tanta e tão acumulada, desbarranca, impossível humanidade.
Eliane F.C.Lima

MAILSON FURTADO disse...

Belo post...

Belo blog...

Parabéns!!!

Convidaria vc a conhecer meu trabalho...
http://mailsonfurtado.com

Grato demais!

vitorchuvashortstories disse...

Olá, JU!

Contundente libelo acusatório, este sob a forma de poema. Poesia que nem por isso torna menos dolorosa a realidade descrita em relação àqueles que são vítimas da incúria, desleixo, desprezo doutros que sendo eleitos e pagos para gerir o bem comum em grande parte das vezes apenas cuidam dos seus mesquinhos interesses.
É chocante e tocante presenciar as imagens da tragédia, e a minha simpatia vai para todos aqueles que dela acabaram por ser vítimas inocentes e desprevenidas.

Beijinhos.
Vitor

Rita Contreiras disse...

Senti a emoção que acredito ter invadido muitos corações sensíveis aos descasos humanos.Uma dor tão profunda essa de ver iguais indiferentes a um sofrimento desse tamanho que poderia ter sido evitado...Tudo é pouco diante dos fatos. Você e sua poesia fazem diferença nesse contexto. Bom te ver de volta.

Fernanda disse...

Amiga Jú,

Infelizmente a verdade está presente em cada verso, em cada palavra sua!!!
A pura realidade jaz aqui escrita neste poema.
Também eu estou descrente que as catástrofes diminuam, bem pelo contrário.
Oxalá nos enganemos.

Beijo

Poemas Tecidos disse...

Que bom, Ju, que tenha voltado com todo seu talento!

Abraços.

Marcia disse...

Parabéns!!! Adorei o poema, muito lindo mesmo.

Úrsula Avner disse...

Oi Ju,

é dolorido pensar naqueles que têm a vida tragada pelas águas torrenciais das chuvas, pela pobreza, pela imcompetência e insensibilidade do governo humano... Seu poema retrata com veemência a vulnerabilidade humana, as dores que dela advém. Bj com carinho e obriada pelas palavras de incentivo lá no meu cantinho.

ju rigoni disse...

À Tania, Andrea, Taís, Ana Claudia, Nílson, Estela, Graça, Angela, Dani, Ariadna, Marize, Patrícia, Eliane, Maílson, Vítor, Rita, Fernanda, Luciene, Marcia, Úrsula...

agradeço a visita e o comentário.

Bjs e inté!