domingo, setembro 12, 2010

Ponto de Interrogação



Este nariz virgulado,
esta boca entre parênteses,
e… aqui!,
entre as sobrancelhas,
dois pontos de exclamação.

No pescoço travessões -,
um para cada frase.
E com quantas reticências
o sol premiou esta face!

Há pontuação: há palavras, -
há erros e acertos há,
que este rosto é pedra bruta,
não conhece perfeição.
As memórias são tantas…
Nele perdeu-se a própria saga.

Mas ainda há vagas
para angústias de todo trato, -
hífens, asteriscos, aspas…

Destacando consoantes
há vogais
no acentuado semblante,
- grave,
cincunflexo til,
agudo trema,
crase…

E à violência de um ponto
que deveria ser final,
uma sucessão de parágrafos…



(O rosto bem junto ao espelho,
e ainda assim não me vejo,
quem é esta que me olha
como quem está de partida?
Quem sou eu?, - é a pergunta
que me segue pela vida…)

ju rigoni (sem registro de data)


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20 comentários:

Eliane F.C.Lima disse...

Há algum tempo eu já sei que nosso rosto - talvez o corpo inteiro - é uma folha onde escrevemos nosso texto. E ele sai, às vezes, trágico, às vezes lírico. E se constrói, não como se quer, mas como se pode, poeta involuntário, psicografando a própria vida, sob o comando do destino.
Eliane F.C.Lima

Patrícia Lara disse...

Olá, Ju!

Adorei o poema... Perfeito este casamento entre as questões de linguagem e sentimentos... amei!

Essa última pergunta "Quem sou eu?" acho que ecoa dentro de cada um de nós... e seguimos sem respostas, pq, creio eu, somos seres ultra-mutantes!

Beijos,
Patrícia Lara

Lua Nova disse...

Ju, as mudanças, por mais radicais, não me assustam. O que me causa pânico é a estagnação, uma sensação de morte em vida.
Seu poema é perfeito, quase um "retrato falado" de cada um de nós perante o espelho e o passar do tempo...
Na frete do espelho encontro alguém levemente familiar, que sempre me pergunta: "onde está a outra da qual me lembro e que mora dentro desses olhos que me olham?
Afff... melhor não pensar muito...
Você escreve muuuuuuito bem.
Vir aqui é sempre enriquecedor.
Beijokas e uma linda semana pra vc.

Wanderley Elian Lima disse...

Talvez uma interrogação.
Bjux

cirandeira disse...

Mesmo que descubramos outros sinais
continuaremos a interrogar-nos, porque sempre teremos perguntas sem
respostas...
Muito bom! teu poema.

Beijos e uma ótima semana pra ti

Marcantonio disse...

Dessa contínua relação entre poetas e a imagem devolvida pelo espelho, o seu poema fala de uma forma que me parece extremamente original. Uma união perfeita entre expressão na linguagem e a expressão fisionômica. E surpreende ainda mais porque, apesar do pronome "este" inicial, o espelho e o sujeito só aparecem claramente no final, assim como o ponto de interrogação preso à pergunta fundamental. Muito bom.

Um beijo, Ju.

angela disse...

e tanta coisa que vi
tanta gente conheci
tantas histórias vivi
quantas faces eu tive
tantos amores senti
dizem que perdi a memória
que estou ficando gagá
são só lembranças demais
que hoje se embaralham.
Adorei seu poema "gráfico"
beijos

Graça Pereira disse...

E o espelho nunca responderá...porque essa pergunta havemos de a fazer até ao fim!
Mais um poema belissimo a mostrar como o nosso rosto pode contar tantas histórias...e permanecermos no desconhecimento de nós próprias.
Minha querida: porque não a publicação de um livro de poemas?
Aí, a pergunta não ficaria sem resposta: Sucesso garantido!
Beijocas
Graça

Fernanda disse...

Amiga Ju!

Essa é uma pergunta para a qual dificilmente obteremos resposta...ou a resposta!

Quando julgamos conhecer tudo em nós ainda há um sem fim de facetas, de fios, linhas, traços, pedaços, sentimentos, confusões, estados de alma, para descobrir...

Belíssima a aua poesia.
Beijinhos

Rafael Castellar das Neves disse...

Excelente, Ju!

Tanto na escrita como no conteúdo..muito bom!!

[]s

DEVA disse...

"Somos esboços de nós mesmos"

Puxa, queria saber onde ouvi isso. Ô minina sem cultura! hehe

Maravilhoso o seu poema. Também acho que somos indefiníveis, mas deixamos marcas do que somos em nós mesmos. No rosto, no olhar.

Ricardo Thadeu disse...

seu poema
sobre a face
transparece
uma interrogação
reticente

muy bueno
até

Nilson Barcelli disse...

Ju, o seu poema é soberbo.
Na forma e no conteudo.
Gostei imenso, parabéns.
Beijos, querida amiga.

Tais Luso disse...

Ju, somos tantas interrogações, exclamações e reticências num só dia que podemos nos perder num ponto final. Não tem como sermos constantes e certinhas se somos, muitas vezes um travessão entre o bem e o mal; entre o coletivo e o individual.

Adorei, achei muito, muito interessante.
Beijos, amiga.

Pedro Luso de Carvalho disse...

"Ponto de Interrogação", Ju, é um excelente poema; um poema singular; no rosto como se fora um livro é escrita a história de uma vida já com muitas estradas percoridas; história escrita mais com pontuação gramatical que com palavras; e aí está a força dramática da história. Parabéns poetisa.

Abraços,

Pedro

Maria Paula Alvim disse...

pois é... Esta pergunta também me persegue (rsrs). Adorei o seu poetar. ´Vou te seguir, pode?

A.S. disse...

JU...

Belo poema!
Mas a resposta a essa pergunta chegará sem que percebas, dissimulada num sorriso de esperança...

BjO´ss
AL

ju rigoni disse...

À Eliane, Patrícia, Lua Nova, Wanderley, Cirandeira, Marcantonio, Angela, Graça, Fernanda, Rafael, Deva, Ricardo, Nílson, Taís, Pedro, Maria Paula, A.S,

muito obrigada pela visita e comentário. Bjs e inté!

Marise Ribeiro disse...

Ju, vim conhecer a poesia de quem diz não ser poeta. Saio encantada com o que li e afirmo que o seu texto é poesia, e das melhores. Deixo minha exclamação neste ponto de interrogação: Maravilhoso!
Sigo você a partir de hoje e alço voo para conhecer seus outros espelhos.
Beijos,
Marise

ju rigoni disse...

Marise, muito obrigada por sua visita e comentário. Bjs e inté!