domingo, julho 11, 2010

Despoema



Manhã azul, - finalmente!
Ah, essa brisa suave...
E o mar, de tão manso,...
calado.

Abro o portão de casa,
e ao sair piso com cuidado...
Ontem choveu,
e o chão de terra batida
ainda está molhado.
Ali, num galho da árvore,
o passarinho alvoroçado
não desiste de insistir...

Bem-te-vi...

Ora, não é canto;
é alerta...
Há um homem morto
na esquina da minha rua!

Já não quero ir à padaria...
Não comprei nem comi o pão
e o estômago fermenta
diante da cena, -
crianças - a caminho da escola -,
param...
Cheias de curiosidade,
examinam o defunto.

Abaixam-se,
chegam bem perto;
tentam ver detalhes...
Dar mais vida ao assunto...

Hoje, na escola, serão professores!...

Algumas riem, -
conseguem achar graça
na desgraça
largada rente à calçada.

Outras, com paus e réguas,
cutucam a perna do morto.

Caminho em sua direção.
E... eis o tal corpo...
Nunca vi nada igual;
quanta violência!

- Saiam daqui!
Chegarão atrasados...
Tento, em vão.

(E eu que vivo a apregoar
as delícias
de morar longe da cidade...
)

Ligo para a polícia.
- Já estamos cientes.
- E por que demoram tanto?
O morto está vivo; está matando...
- Pode repetir, senhora?...

Desligo.

A massa cresce,... uniforme...
Tiro o chapéu e avanço
brandindo-o como a espantar moscas!...
- Saiam daqui, crianças!

E o menino, com raiva:
- Você não é a minha mãe!
- Decerto que não! - respondo irritada,
e penso se devo jogar um pano
sobre a face crispada e sem vida...
(Mas o que diria a perícia?...)

As crianças me olham
como se olha o bandido do filme de ação.
E não me venha dizer
que seus pais preocupam-se
com o que assistem na televisão!

Por um momento, sou eu a novidade...
A tia velha
que acaba com a brincadeira.

Fico ali, de pé...
Magricela e acesa,
sou uma vela!

Bem feito para mim!,
que não aceito o mundo em que vivo
com a naturalidade
de outros adultos
que, braços cruzados,
mudos,... inertes,
observam a festa da garotada.

Aqui, enquadro-me, sim,
no tal conceito de velhice...

Ou, quem sabe,
morri,
e não sei, -
alma penada assombrando
esperanças,
para tentar desviá-las
de uma esquina fora de hora...

A voz da menina,
rosto moreno, traços delicados,
traz-me de volta à razão(?)...
- Vá cuidar da sua vida!

Leio seu nome
na etiqueta da régua;

Ângela...

O nome dela é Ângela...

ju rigoni (1999)

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16 comentários:

Luciana P. disse...

Às vezes o poema, apesar das metáforas e da sonoridade pode ser um despoema na medida que retrata a realidade crua, nua, sem máscara, sem fantasia. Foi o que percebi nos versos. Muito enfáticos e precisos.

Beijos pra ti e uma ótima semana.

Ana Lucia Franco disse...

Manhã desviada da sua rota, que rendeu um excelente conto em forma de versos. Essa tal naturalidade dos adultos que na verdade é um anestesiamento. O mundo toca, sim. Mexe e sempre haverá de mexer.

bjs.

Wanderley Elian Lima disse...

Oi Ju
Cena vista todos os dias e todas as horas por essas ruas afora. A cada parte que lia ia imaginando a cena com tanto realismo que me senti no local. Acho que teria a mesma atitude sua, seria o tio velho a tentar humanizar o local.
Beijos

Tania regina Contreiras disse...

Ju, a realidade triste, dura, mancha o poema, mas não o encobre. Também não pertenço a esse mundo, que fazemos aqui?
Abraços,
Tânia

Andrea de Godoy Neto disse...

Ju, um poema nu, cru,e cheio de beleza ao retratar uma realidade quenos choca (ou pelo menos devia). Mais chocante do que a vista do corpo é a não vista de quem pouco se importa.

beijos e boa semana

Tais Luso disse...

Ju, li este teu poema com tanta atenção!! Linha após linha se desvenda nosso dia-a-dia, com a curiosidade insana das crianças e velhos, não importa. E à desgraça dos outros, corre-se para ver como estará...Nada mais cruel e insensível ficarmos olhando o defunto gelado, caído. Vê-se a que ponto chega o ser humano. E foste fundo...Crianças cutucando a morte. Insensíveis. Acostumadas. Não diria que este é um lindo poema e sim uma triste realidade, retratada com fidelidade. Acho que foi um trabalho árduo...Isso tudo nós construimos.

Beijão, amiga.
Tais luso

Eliane F.C.Lima disse...

Vejo nesse despoema o ser humano diante de si mesmo: um só assassinato não lhe basta. E o crime vai se reproduzindo a cada olho que espia e se farta dele. E esse fartar-se nasce cada vez mais cedo.
Se a menina se chama Ângela, culpa dos seres humanos, que inventaram seres impossíveis em sua perfeição. E bem longínquos: não vá alguém se contaminar de sua perfeição. Às vezes, por puro engano - ou ironia! -, brindam-se com pequenas doses dessa ilusão.
Eliane F.C.Lima

L. Rafael Nolli disse...

Bato palmas para esse poema! Me pegou na primeira linha, fui sendo tragado pela história desse morto e tudo que gira em torno dele! Muito bom!

Nadine Granad disse...

Aaaaaaaaaa...
Crônica com poesia... não-poema, rs...
Genial!
A metáfora da vida descrita por uma alma que exala mil pensares!!!

Beijos =)

tom-sobre-tom disse...

Os anos passam, os dias também e o poema vai anoitecendo. As "Ângelas"
estão de asas partidas, o teto está desabando sobre suas cabeças!(como na imagem distorcida). Hoje as crianças, não apenas olham, mas
transformam pessoas em "presuntos", com suas pequenas e afiadas navalhas noite adentro.
E o pior de tudo isso é que vem se transformando em banalidade, em IMPOTÊNCIA!

Um abraço grande!!

Rita Contreiras disse...

A indignação de quem não se sente pertencente a esse mundo é como um tempero de sensibilidade à realidade crua. Cumpriu sua função de poeta, gerando beleza mesmo tendo a crueza como ponto de partida.

MAILSON FURTADO disse...

Excelente texto...

PARAbéns pelo belo blog...

MUITO BOM!!!

Acesse...

http://mailsonfurtado.blogspot.com

Nilson Barcelli disse...

Querida amiga Ju, este seu poema é fabuloso.
Retrata uma cena do quotidiano de um modo poético invulgar e bem estruturado.
Vc é mesmo poetisa, querida amiga. Não é qualquer pessoa que diz "O morto está vivo; está matando...".
Parabéns pela excelência deste poema em particular e da sua poesia em geral.
Bom fim de semana, beijos.

Paula: pesponteando disse...

Nós somos isso, moscas sobrevivendo da desgraça alheia. Eis nosso retrato fiel enquanto sociedade, enquanto seres humanos. Cada dia mais me pergunto: será q ainda teremos como mudar(o mundo e nós)? E cada dia mais tenho medo da resposta, pois ela não vem em palavras, vem em ações: ações como esta q antes era restrita aos adultos,mas q cada vez mais se torna banal no mundo infantil.

Um texto profundo...que poderia ser apenas ficção fantastica, mas q é uma representação do real...

bjs

Sonia Schmorantz disse...

Gostei imensamente deste poema!
Beijo, linda semana

ju rigoni disse...

À Luciana, Ana Lúcia, Wanderley, Tania, Andrea, Taís, Eliane, L.Rafael, Nadine, Tom-sobre-Tom, Rita,Maílson, Nilson, Paula e Sonia meu muito obrigada pela visita e comentário. É uma alegria vê-los por aqui.

Bjs e inté!