sábado, junho 12, 2010

D'eus...



O eu do poema
nem sempre
é o eu do poeta.
O eu do poeta,
enquanto poeta,
nunca foi seu…
O eu do poema
alimenta-se
enquanto nutre outros eus, -
é muito mais do que um único eu…
É um eu tão profundo
que não tem fundo,
não tem pouso,
nem repouso…
É um eu em pessoas, -
as primeiras,
as segundas,
as terceiras…
É um eu em queda livre,
um eu em abandono,
que não se reconhece
em um único dono…
O eu do poema
não é pastor,
é rebanho, -
é o eu de um mundo,
onde ainda há lugar
para o eu
(que não é só) do poeta
e seus poemas
de infinitos eus…
tão singularmente
divididos.

Cabe ao poeta
o improvável teorema
de um eu
que nunca lhe pertenceu…
Resta ao poeta
assinar o poema que escreveu, -
para que não se perca
de si mesmo…
do eu
que tantas vezes
pensa ser o seu...

ju rigoni (1999)


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17 comentários:

Lara Amaral disse...

Poema essencial para o fazer e perceber poético, gostei muito!

Beijo.

Luciana P. disse...

Ju, que lindo esse poema. É do "fundo de mim" mesmo, rsrsrs.
Faz enxergar o eu do poeta, que muitas vezes se confunde com o outro eu. Mas acho que só os poetas conseguem decifrar esses "eus". A gente, simples mortal, que fica do lado de cá, só aprecia as palavras em melodia.
Beijos pra ti e parabéns, lindo post!

Wanderley Elian Lima disse...

O poeta, transmite sentimentos que não necessariamente são os seus, ele descreve a realidade e os sonhos,com palavras que vai tecendo a esmo.
Bjs

Andrea de Godoy Neto disse...

Ju, fantástico esse poema de tantos eus...o poeta é mesmo assim, né? povoado de tantos que, às vezes, é nenhum

um beijo pra ti

Sonia Schmorantz disse...

A saudade falou mais alto, e cá estou eu a visitar os amigos. O poema é de uma rara beleza.
beijo, linda semana

Tania regina Contreiras disse...

É isso mesmo, Ju, uma multiplicidade de seres que habitam o poeta, muitas vozes que falam através do poeta, da poeta...O poeta é o canal através do qual um mundo se expressa: muito bacana!

abraços,
Tânia

Tais Luso disse...

O poeta sabe dizer as coisas que, nas entrelinhas cabem diversas interpretações, como se fosse uma obra de arte. Em suas linhas e com sutileza, vai tocando no que convém; não desvenda tudo de uma vez; vai largando seus vários ‘eus’ pelo caminho, vai comendo pelas beiradas... E acaba dizendo o que pretende com graça e ritmo revelando todas as facetas num único poema.

Meu carinho, amiga!
Tais Luso

Paula Laranjeira disse...

E fui lendo e ...lembrando...

"a poesia não é de quem faz, mas de quem precisa dela"

"Pessoa e seus eus"

Seu poema está lindo. Nenhum outro poeta ousou ser tão preciso nesta descrição do fazer poético, do eu lírico, dos leitores...

parabéns....pefeito!

Nadine Granad disse...

Ju:

Gostei muito!...
Bem que alerta: cabe o mundo!...

Somos eus... por vezes nos perdemos!...


Beijos =)

Ana Lucia Franco disse...

Ju, sinto a poesia como um constante desintegrar-se para se integrar num universo excessivo, de muito eus, imagens, coisas e criaturas. Um constante teorema, estar em tudo e não ser nada, ser tudo e não estar em nada. Poema divino.


bjs!

Ana Agarriberri disse...

Nossa, que lindo tudo aqui no blog, parabéns por tudo que escreves, beeejo, boa semana pra você. :)

Nilson Barcelli disse...

É o primeiro poema que leio seu e já o entranhei sem o ter estranhado...
Magnífico. Estou deliciado com meia dúzia de linhas. Promissoras, já que o poema é de 1999 (vou ler mais, se possível um século depois...).
Beijos.

PS:

Incontáveis são os eus que nos habitam.
Diferentes os meus dos teus,
mesmo não os podendo comparar,
porque, tal como tu, por dentro não me vejo.

Vejo-te quando te imagino ou sinto,
mas desconheço qual de mim te vê.
Não sei qual de ti me imagina e sente,
nem sei qual de mim tu vês.
Se eu chamar de alma
àquilo que em nós imagina e sente,
as almas que temos são muitas.
Tantas almas quantos os eus,
que lutam entre si continuamente
para monopolizarem o imaginar e o sentir.

Quando nos tocarmos, vamos contar
quantas das nossas almas se beijam
e, só então, saberemos se é
com amor que os nossos eus se entrelaçam.

Eliane F.C.Lima disse...

Ju,
De todas as vezes em que li esse poema, uma nova beleza foi se revelando. Da última, surpreendi uma verdade nova. Me pareceu ver o significado de que o poema vai em sentido contrário do que se imagina, o eu do texto determinando o eu do poeta, apenas um de seus eus. E, embora o poeta decida se apossar desse eu poemático, é uma posse impossível. O eu do poema sempre será o eu do poema, um eu estilhaçado como vidro quebrado, que é capaz de nutrir-se, famintamente, inclusive, de todos os eus, imprudentes, que vão ali lê-lo.
Eliane F.C.Lima

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Juamiga

Os nossos Luso de Carvalho, o Pedro e a Tais, deram-me a conhecer-te. Os teus cumentários, com o, que tenho lido com atenção, também me despertaram o desejo de vir aqui. Conquistaste-me - éoké...

Eu sou mais prosa, mas também gosto de Boa Poesia. Que é o caso. Os teus quatro blogues são disso testemunho. Bem hajas. 'tobrigado.

Venho também desencaminhar-te. Vai à Minha Travessa; pode ser que gostes. Os malandros lá de cima, ou seja os L de C, o P e a T, parece que gostam. E no VEREDAS o Pedramigo até postou um texto excelente sobre o meu «Morte na Picada».

E deixa cumentários, com o. E faz-te minha (per)seguidora. E, e, e... espero por ti

Qjs = queijinhos = beijinhos

CAMINHOS DE LUZ disse...

O poeta aquele que sente a alma do mundo, ouve gritos e clamores universais, sente na pele todas as dores e amores e traduz na sua escrita. Grande abraço.

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Ah Ju, um dia vi uma entrevista da Fernanda Montenegro, que disse que era bem esquisito se ver num filme. Pq tinha ela a atriz, ela que estava vivendo coisas naquela época, ela de agora se vendo....nossa....é uma bagunça mesmo.

Acho que o poeta tem mais consciência de tantos eus. Não que isso mude algo, mas enfim!

ju rigoni disse...

Larinha, Luciana, Wanderley, Andrea, Sonia, Tania, Taís, Paula, Nadine, Ana Lúcia, Ana, Nilson, Eliane, Henrique, Caminhos de Luz, Wall; meu muito obrigada pela visita e comentário.

Bjs e inté!