domingo, maio 23, 2010

Da Cor Inexistente


Meus olhos negros
são tão azuis quanto os seus, -
olhos da cor do mar,
negros como os meus.

Mas o mar é mesmo azul?...
Minha pele morena
conta histórias de outras peles,
outros ares…
outras terras,
outras línguas,
aromas, paladares, -
deidades
que na paleta da natureza,
mãe de todas as cores,
comungam a mesma verdade.

Cores…
À luz, revelam-se,
mas em sua ausência
unem-se em emoção única.

Meu sangue é brasileiro,
libanês, italiano, africano,
português, boliviano,
francês, japonês…
Meu sangue é só isso…
Só sangue!

Palavras
dão nome à cor, sim.
Mas palavras
não têm cor, não.
Palavras são
como deveriam ser
todos os homens
que insistem em dar cor,
números, fronteiras
a palavras e homens.

Minha cor
é fruto da árvore
- ora amor, ora libido -
que cresce em tantas outras…
Florestas que se plantam
não apenas em camas,
ou em chamas ardentes
que, indiferentes,
aquecem e deitam ao chão
tantas questões à mesa.
Florestas também semeadas,
paridas,
no leito do preconceito.
De um modo ou de outro
florestas que multiplicam-se
ininterruptamente…

Minha cor
é a cor do mundo.
Minha cor
e todas as cores
que a ignorância,
travestida em poder,
transforma em arma cruel
para distinguir seres humanos
de seres humanos.

Cor,
como a alma
e o amor ao próximo,
é lição
da qual o homem apropriou-se,
mas não aprendeu.
Nos livros da vida,
mais que nos da escola, -
mais ignota que desconhecida,
a aula de Transparência.

ju rigoni (1985)
imagem via google

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14 comentários:

Lara Amaral disse...

Poema escrito no ano anterior ao meu nascimento. E as questões são as mesmas, e o que buscamos cresce e decresce em looping, acaba que ninguém olha para atrás para ver onde errou, nem para frente sem conseguir tropeçar nos vãos do passado; estamos sempre andando em círculos.

Muito bom poema.

Beijo.

A.S. disse...

Ju...

As cores são aquelas que queremos que nossos olhos vejam...

Beijosss
AL

Tânia regina Contreiras disse...

Ju, na ausência da luz as cores se amam - que coisa mais bela! Aliás, eu sou suspeita já, porque gosto tanto disso aqui...rs

Beijos,
Tânia

Teresa disse...

Ju
Passo algumas vezes pelos seus blogues, para ler as suas palavras. Peço a sua autorização para pôr no meu blogue um poema seu (com os devidos créditos), na terça-feira.
Bjs

Wanderley Elian Lima disse...

O homem dá nome , e rótulo a tudo, desta forma cria o preconceito e discriminação, contra aqueles que não seguem os padrões que estabelecem.
Beijos

cirandeira disse...

Esse poema é belíssimo!!!

O preconceito tem raízes antiquíssimas: de poder e dominação
com interesses predominantemente
econômicos. Ainda hoje!

Beijos

Valéria Gomes disse...

Tanta coisa linda neste planeta, e as pessoas se gastam com esse tal de preconceito, que para mim nem cor tem, sentido então, está bem longe.
Minha querida, tuas letras estão ótimas!!!

Muitas beijocas!!!

Luiz Caio disse...

Oi Ju, Como vai?

O amor deveria prevalescer sobre todas as coisas, sobre todas as cores e credos, e raças... O amor deveria ser suficiente!

Adorei o seu blog, muito lindo!
Vou te seguir também!

TENHA UM LINDO DIA!

Beijos.

Tais Luso disse...

“Minha cor
é a cor do mundo.
Minha cor
e todas as cores
que a ignorância,
travestida em poder,
transforma em arma cruel
para distinguir seres humanos
de seres humanos.”

Quanto à cor...

Sabemos que as manifestações são violentas, principalmente contra os negros - eles têm, sim, suas razões para odiarem o mundo, mas de nada vai adiantar dizer que um erro não justifica o outro. Foram arrancados de sua pátria, escravizados em mundos diferentes e, ainda, torturados num certo Pelourinho, hoje lindo e maravilhoso, todo colorido, lugar ideal pra turista tirar fotografias e rir não sei de quê.

Ju, infelizmente, enquanto existir a raça humana na face da terra, haverá o preconceito em todas as esferas. O ser humano é assim, discriminador, cruel e hipócrita.

Gosto muito de teus poemas porque eles falam do social, da vida, do sofrimento... Eles falam do que não está bem, falam do podre da sociedade. Por isso que ele se difere.

Beijos, amiga!
Tais luso

Carol Freitas disse...

Ju,

Adoro suas visitas no meu Blog! E retribuir a visita encontrando suas palavras é sempre um prazer!

Vi que agora é "nosso mar" e "nossa cor"! =)

Beijo

Poeta Jorge Henrique disse...

Lindo, profundo, verdadeiro...

Parabéns pelo teu espaço.

Certamente voltarei.

ju rigoni disse...

Larinha, Albino, Tania, Teresa, Wanderley, Cirandeira, Valéria, Luis Caio, Taís, Carol e Jorge Henrique... Meu agradecimento pela visita e comentário.

Bjs e inté!

Eliane F.C.Lima disse...

Querida Ju,
Seu texto poetizou a verdade que o DNA veio revelar: por dentro de nós há um segredo que nossa pele, às vezes, não revela. A poesia tem essa capacidade, a de tirar o véu do irrevelável. Mas de forma sutil, envolvente, manhosa.
Eliane f.C.Lima

ju rigoni disse...

Obrigada, Eliane, pela visita e comentário.

Bjs e inté!