.

Eu me lembro
quando, ainda criança,
consegui perceber
o mundo à minha volta…
Eu era uma “tecla” de piano,
e meu avô, entre tangos,
tocatas e fugas,
afinava-me...
Num tom grave,
tocava em assuntos,
para mim, desconhecidos.
Conversava comigo,
e me apresentava uma vida
que, agora eu sabia,
não giraria para sempre
ao redor do meu umbigo;
não seria feita só de alegrias.
Eu me lembro
quando compreendi
o conceito de fome,
de pobreza,
de violência,
de preconceito…
Porque só então
aprendi a chorar de verdade, -
chorar de uma dor diferente,
que eu não conseguia localizar
porque transcendia o meu corpo.
Era no coração,
mas não era no coração…
Era uma dor apertada,
seguida de um sufocar
que eu, ainda mergulhada na infância,
não sabia explicar…
Lembro-me da tristeza, da revolta
e da incessante pergunta:
- Mas por que, vô, o mundo é assim?…
E enquanto seus olhos de veludo
me acariciavam,
brindavam-me com algum alento -,
de sua boca saiam palavras
que em nada se pareciam
com meus sonhos,
meus brinquedos,
meus planos de menina…
O que meu avô contava,
de um jeito mais bonito,
em muito se assemelhava
aos bem ditos da vovó:
- Não reclame da comida.
Você tem o que comer!
- Não fale com estranhos.
Há pessoas muito más…
- Todos somos iguais
porque todos somos diferentes…
Eu cresci reclusa na recusa
de compreender este mundo,
e aprendi muito bem
o que é um ser humano.
Mas os problemas cresceram também.
E sempre ganhavam de mim,…
em altura, em peso, em importância…
Ao crescer,
fui sendo apresentada ao Poder, -
ao pai tantas vezes desafinado;
que sabe tocar,…
mas tira das teclas o som errado, -
nem sempre acarinha filhos
que já nascem desencantados.
Eu crescia e apreendia
o que era desaprender…
Anos e anos depois,
olho para minha filha
e as lembranças me corroem, -
uma preparação…
A “música” do meu avô
ainda mora em mim,
mas eu não sei tocar piano!
E essa minha nota
é também digna de nota…
Como fazer vibrar essa “tecla”
sem desafiná-la?
Tantas e tantas vezes terei que tocá-la…
Ah, quanta falta me faz o meu avô!…
Chegou o meu tempo
de aprender a fazer boa música.
Preciso, como às vezes faz o afinador,
aos pouquinhos, com delicadeza,
bater nessa minha teclinha,
e usar bem os ouvidos,
todos os meus sentidos,
para avaliar-lhe os sons, -
os choros, os sorrisos,
as frustrações, os desejos.
Logo precisarei quebrar-lhe
o melhor de todos os encantos…
Sem extinguir, -
sem exterminar a criança que nela vive.
Não há neste mundo
nada mais difícil…
Ou mais necessário.
ju rigoni (1985 – escrito quando minha filha, M. Mell,
tinha cinco anos de idade. Reeditado.
Publicado anteriormente no Fundo de Mim, quando hospedado no wordpress)
Aos Amigos e Visitantes
Desejo a você, e a todos os leitores que me acompanham,
Boas Festas e Feliz 2012!
Que cada um de nós, ainda que pareça pequena, faça a sua parte,
para que possamos manter acesa a esperança de um dia vivermos num mundo
mais justo, mais humano, mais solidário.
Meu beijo, meu abraço apertado, meu muito obrigada
por me fazerem companhia nessa jornada virtual.
Espero estar de volta a partir do segundo domingo de 2012.
Enquanto isso, vou tentando visitá-los.
Bjs e inté!
Visite também
Dormentes, Medo de Avião, Navegando...




26 comentários:
Muito bonito este seu balanço de vida! Realmente o sentimento de pertencimento e ao mesmo tempo a angústia existencial que nos acompanha ao longo de nossas vidas aguça a nossa própria responsabilidade na condução de interagir com os mais jovens. Mas o sentimento de fragilidade diante do mundo e´sempre a mesma ,pois somos todos eternos aprendizes. Um Santo e Feliz Natal pra você e toda sua família.Um grande abraço
um Santo Natal para si, Ju!
e tocante o seu encanto quebrado e as saudades de seu avô
um beijo
manuela
Bastante oportuno o poema e o texto. Tenho conversado com pessoas que o prazer que temos com o Natal se dá pela volta à infância a cada fim de ano, levadas pela mágica da recordação que a festa traz. Natal é festa de criança, mesmo que sejamos adultos. Acho que essa sensação trouxe o avô de volta.
Feliz Natal, que já começou pela lembrança, e um 2012 atravessado pela paz.
Eliane F.C.Lima
Façamos de nossa vida uma extensão da noite de Natal,
renascendo continuamente em amor e fraternidade.
Natal, noite de alegria, Canções, festejos, bonança.
Que seu coração floresça Em amor e esperança!
Um poema repleto de "flash back" que nos transportam às fases de crescimento e as cotejam com as fases de crescimento de quem estamos a criar!
Há aqui um factor comparativo... há aqui uma nota de necessidade de não cometer os mesmos erros... há aqui uma nota de tentar atingir uma certa perfeição.
Um poema bonito de uma pessoa bonita!
Ju, como gostei de te ler agora, querida poeta! Como teus poemas me chegam, desde o primeiro que li, tão intimamente! Inevitavelmente, fiz eu uma viagem à infância tb e recordei de algumas perguntas que começaram a se esboçar ali e até hoje ressoam...
Um grande Beijo pra ti
Querida Ju
Perdão pelo “copy & paste”, mas não dá para individualizar…
Trago votos de BOAS FESTAS, fazendo minhas as palavras de Gandhi…
“Se eu pudesse deixar algum presente a você, deixaria aceso o sentimento de amar a vida dos seres humanos;
A consciência de aprender tudo o que for ensinado pelo tempo afora;
Lembraria os erros que foram cometidos para que não mais se repetissem;
A capacidade de escolher novos rumos;
Deixaria para você, se pudesse, o respeito àquilo que é indispensável:
Além do pão, o trabalho; Além do trabalho, a acção.
E, quando tudo mais faltasse, um segredo:
O de buscar no interior de si mesmo a resposta e a força para encontrar a saída."
(Gandhi)
BOM E SANTO NATAL E FELIZ ANO NOVO
Beijinhos
Minha querida
Como sempre a emoção está contida em cada um dos teus poemas...a vida é feita de recordações doces e amargas, mas que guardamos para sempre dentro de nós...amei ler-te e desejo um Natal cheio de paz e muito amor, junto de todos os que te são queridos.
Beijinhos com carinho
Sonhadora
"Como fazer vibrar essa “tecla”
sem desafiná-la?
Tantas e tantas vezes terei que tocá-la…
Ah, quanta falta me faz o meu avô!…
Ia a dizer-lhe que também
mas a tempo parei
Deu para pensar que avô
eu próprio o sou
e tenho tanta tecla para afinar...
(é muito bonito este escrito)
Olá, Ju!
À medida que vamos crescendo, a realidade que pouco a pouco vamos descobrindo nem sempre se encaixa nos sonhos sonhados, e temos então difícil em descobrir onde encaixar a nossa verdade...
Avô sábio e terno esse, que tão bem sabia como tirar o som certo dessa tecla chamada sensibilidade; acho que será um dom - de que nem todos seremos dotados, não sei ...
BOM NATAL; FESTAS FELIZES, com tudo de bom para si e os seus.
Beijinhos.
Vitor
Obrigado Ju
Desejo também a vc, um Natal de luz e um Ano Novo repleto de saúde e realizações.
Bjux
Minha amiga!
Abençoada reedição, pois não tinha lido e agora devorei por inteiro; bebendo desta música, deste aprendizado, desta beleza toda.
Não conhecia a ascendência, mas acho que ela explica esta Ju tão especial, tão linda.
Obrigada
Feliz Natal amiga.
""Sou uma árvore de Natal diferente
Um dia senti,
Que a terra ardia.
Pensei, ser eu
Que estava febril,
Delirante,
Ou tinha mesmo acordado
Atordoada,
De uma noite mal dormida.
O tempo era de Verão,
O vento que soprava
E a gente que passava.
Grande era o alarido
Que num instante
Virou clamor e fundiu o espanto
Em pranto de dor.
Não estava febril, afinal,
Nem mesmo mal acordada.
Tudo ardia em meu redor
Ao som de gemidos e estalidos
Em tom de sinfonia gritada,
E logo em cinzas eu via
A minha terra,
A minha gente,
O meu adro
E o meu terreiro…
Holocausto em nome de nada.
A dor foi passando
Como a água do ribeiro
Ao encontro da outra margem.
Do meu chão,
Erva verde, frágil e mansa
Foi crescendo,
Relembrando a cada instante
A minha solidão,
A negrura,
Que em tom de amargura
Se havia instalado
Em todo o canto de mim.
Sem ramos, nem folhas,
Sem filhos, nem amigos
Desistia da vida,
Mesmo,
Que o vento me açoitasse
E as lágrimas teimassem
Em saltar porta fora.
O tempo foi passando
Estirada naquele chão,
Espreitava o dia acontecer,
No desejo de me arrastar
Para além do mar.
Um dia,
Um outro dia…
O chão estremeceu.
Do céu, uma fresta de luz
Incandesceu,
E não sei mesmo
O que me aconteceu.
Senti mãos,
Escutei vozes,
E fiz viagem até esta paragem.
E aqui estou eu!
Nesta sala iluminada,
Neste sítio ajeitado no abraço,
Neste canto todo feito de ternura.
Continuo feia e queimada,
Ressequida e enquistada,
Não mo lembrem, …sei bem.
Mesmo sem ramos, nem folhas,
Mesmo tendo perdido o vigor
E a robustez doutros tempos,
Neste espaço tão mimado
E com laços brancos enfeitada,
Sinto-me noiva, amante
Deste tempo de Natal.
Saibam de mim!
Escutem a voz do meu coração,
Olhem bem em meu redor…
E mesmo que a noite seja fria
Não há maior alegria
Do que aquela
Que a minha alma canta.
De braços queimados,
E toda vestida de branco,
Oh gente de Campos,
Oh gente desta terra
Bem-haja!
Obrigada.
Natal de 2011
Poema de Maria José Areal"
Beijinhos
Ná
Querida, vim retribuir seus votos de Feliz Natal, desejar que a Luz Santa de Jesus esteja sobre o seu lar, energizando e abençoado você e toda a sua família. Agradecer pela adorável companhia deste ano. Estimo que em 2012 estejamos juntas, de mãos dadas nesta caminhada poética, fazendo dos versos e da poesia um escudo contra a violência e o desamor. Beijo grande.
http://paraneura.blogspot.com/ esse é meu blog
estou te seguindo amei ler você parabens e bom ano novo
Minha Querida
Um poema que fica bem neste quase final de ano...
Alguma vez saberemos tocar uma sonata com perfeição, sem errar as teclas? Julgo que não!
Mas são os encantos e desencantos desta vida, que formam a nossa alma e, talvez um dia, o teu avô veja com admiração a partitura bem sabida e até ele subam as notas musicais mais perfeitas de alguem que nunca soube tocar piano!
Um santo e feliz Natal para ti e todos os teus.
Mil beijos.
Graça
Fez muito bem em voltar a publicar! História de vida, sentimentos profundos, aprendizados...
Vim lhe desejar um Feliz natal junto aos seus!! Boas festas!! Feliz ano novo!! Tudo de bom para você nesse novo ano que desponta no horizonte!!
Beijus,
Hola muy bellas tus letras,
que tengas unas felices fiestas
y para el nuevo año que llega se cumplan tus
deseos, ¡feliz año 2012!.
Un abrazo.
Querida amiga Ju
O teu "relato" verdadeiramente poético comoveu-me.
Causa uma certa nostalgia reviver o passado, que foi o que me aconteceu ao ler-te.
Mas adorei!
E agora, se me permites, vou transcrever para aqui a mensagem que preparei para os blogs amigos, dado que a falta de tempo não me permite individualizar:
"Venho desejar BOA PASSAGEM DE ANO.
Queria te trazer algo super especial para o Ano Novo, mas tive um problema:
- Como vou embrulhar toda a minha amizade e ainda um doce beijo?
Perante tal dificuldade, decidi oferecer-te uma frase do nosso imortal LUÍS DE CAMÕES:
“Jamais haverá Ano Novo se continuarmos a copiar os erros dos anos velhos”.
FELIZ ANO NOVO!"
Não posso deixar de agradecer o teu carinho, a tua presença amorosa, a tua amizade... desejando que os mesmos continuem indefinidamente.
Beijinhos com todo o carinho.
Ao término deste ano, onde os sentimentos de fé e esperança renovam-se,
rogamos a Deus que abençoe todos nos, que ilumine nosso caminho,
afastando de todos nós o pensamento de desesperança e de descrédito em nosso semelhante.
Tenhamos força e tranqüilidade para enfrentarmos as tormentas
que hão de vir e que os sentimentos de coragem,
superação e justiça possam estar presentes em nossos novos dias de 2012.
Que nossa amizade seja cada dia mais profunda e de entendimento e carinho.
Um Feliz Ano Novo Para Você.
Para todos nos.
Beijos no coração.
Evanir
Oi querida, vim te desejar Feliz Ano Novo e um 2012 repleto de alegrias, com muita paz, saúde e grandes conquistas. Beijo grande, obrigada pela companhia tão especial em 2011!
Que o 2012 possa concretizar todos os teus sonhos e que não venha tão feio quanto o pintam!
Um grande abraço e um beijinho!
Voltei, reli e de novo me surpreendi com tanta beleza.
beijo, amiga Ju.
Ná
Hoje, passo só para te desejar um 2012 em GRANDE. Dia de REIS, que eles te mostrem a estrela que os guiaram a porto seguro e santo.
Mil beijos.
Graça
Querida Ju, posso dizer com certeza que este foi seu melhor poema! Pra mim, é claro. Diz tudo do mundo, das pessoas, de nós, de nosso desconhecimento e de nossa ingênua infância. E diz de nossos avós, sempre queridos, pois nos veem com olhos de quem não tem o compromisso de nos educar, apenas usa suas palavras como amigo. Diz de nossas dúvidas, e de nossa maturidade. Diz de nossos pais, diz de nossos filhos. Diz tudo, amiga, nas entrelinhas percebe-se o que não se percebe no dia a dia, no amadurecimento nosso junto à sociedade em que vivemos. Este bateu fundo!É uma retrospectiva de nossas vidas.
Grande beijo.
Tais luso
Ju, querida amiga, espero que o teu Natal tenha sido ótimo.
Tem um Feliz 2012 e um bom fim de semana.
Beijo.
Aos queridos amigos, meu agradecimento pelas visitas e comentários.
Bj e abraço apertado. Inté!
Postar um comentário