
I
Estranha genealogia,
sem frutos de amores proibidos;
de escolha pré-concebida,
pré-acertada entre os pais…
Do rito sabem as mães
que viveram o mesmo drama
e, obstinadas,
empunham contra o rebento
a lâmina afiada,
de fio contaminado
pela palavra sagrada.
Requinte de crueldade
que expõe ao risco
meninas em tenra idade.
Nascem para a dor de morrer,
todos os dias,
da dor de todas as dores, -
de falta de amor.
Elas não têm clitóris,
não conhecem o lugar
onde mente e corpo
encontram-se no prazer.
Não conjugam o verbo ser…
Só sabem da alegria do cego,
que potencializa os demais sentidos.
O ego é luz apagada.
A arma é poderosa, -
nenhum homem pode com ela, -
por isso é melhor extirpar!…
Eles têm muito.
Eles têm tudo.
Mas…
II
Poderoso clitóris
que ganha o mundo,
admirado por homens
e mulheres.
Cada dia mais empinado,
mais arrogante,
mais instigante;
mais sabido,
sugado, chupado
e querido, -
mais amado que o falo, -
é o que dizem…
Metam-se com a vagina,
ou, se preferirem, com o ânus,
que do contato com o clitóris
ninguém entra ou sai impune...
ju rigoni (sem registro de data)
Foto-Arte Bernardo Castanho
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18 comentários:
De uma dureza bela e real. Das civilizações orientais que o temem até a ocidental que subestimam.
Bjux
Minha Querida
Em versos soltos desempoeirados... a verdade dos nossos dias...sem tabus...que muita gente condena e...outros, não têm coragem de aflorar!
Parabens pelo poema e pelo sentido de oportunidade!
beijo amigo e votos de boa semana
Graça
Neguinha, que texto!
Inicialmente iquei pensando nas muitas mulheres que não puderam amar alguém a primeira vista. Que tiveram seu "destino" traçado levando-se em conta um dote ou coisa do tipo. Mulheres procriadoras, jamais amantes.
E depois fiquei pensando da revoluçõ sexual presidida por muitas mulheres, na livre escolha do parceiro, ainda agora, demais banalizada...
Seu texto permite uma caminhada histórica via estrada poética com força tal, que despe o leitor de falsos pudores bem como retira à força a trava que impede a visão.
bjs
Sei que esse é um poema polêmico, cuja leitura, em alguns casos, violenta excessivamente. Leva, dentre outras inúmeras questões, a pensar no choque entre culturas, no olhar preconceituoso que uma lança sobre a outra; na mulher ainda enfrentando todo tipo de preconceito; e pode, eventualmente, conduzir a um questionamento acerca das escolhas de quem o escreveu, posto que ele soa de modo retumbante e confessional...
Quando o escrevi, infelizmente não tenho registro de data -, como mulher, mãe e avó que sou no sentido mais tradicional, também eu senti-me violentada.
Mas, em verdade, tem sido quase sempre assim com alguns de meus escritos, especialmente aqueles em que opto por escrever na primeira pessoa.
Desde 2004, quando comecei a blogar, e ainda não hospedada no wp e no blogger, já fui chamada de puta, bandida, "bicha louca", terrorista, velha corrupta, velha assanhada, assassina,... e perdi a conta do número de vezes em que recebi e-mails maldosos e não pude liberar comentários porque não eram ofensivos só a mim, mas também aos meus queridos leitores. Sem falar em estranhas críticas, que parecem ser uma sina de escritores do sexo feminino que "atrevem-se" a ousar, fato que me desanima e acabou condenando à gaveta, alguns de meus textos, que nunca foram e nem serão publicados aqui.
Aliás, o assunto é abordado com maestria, pela doutora em Literatura, Eliane F.C. Lima, num artigo intitulado O Novo Tom da Narrativa de Mulheres.
(http://literaturaemvida2.blogspot.com/2010/08/o-novo-tom-das-narrativas-de-mulheres.html)
Muito obrigada! Bjs e inté!
Não sabem os responsáveis pela propagação da cultura castradora de mulheres, que sua grande força está na mente e não é extirpável. A prova disso é que a luta contra essa prática teve maior visibilidade exatamente pela voz daquelas que sofreram a violência.
Um poema que fale contra a violência, sem pudor (porque é dela que a gente se deve vexar!), é o gozo puro da liberdade e da literatura.
Eliane F.C.Lima
Há na sua poesia uma força tal que as convenções são transpostas de forma natural. E, a mensagem, chega ao destino por inteiro...
Beijo :)
Ju, poesia não é só lirismo e epifania, é também grito, indignação, verdade que arde, duríssima. Nesse momento em que questionam a pena de apedrejamento da mulher no oriente médio, o poema vem muito a calhar. Por aqui, experimentamos a violência sutil e psicológica dos mais variados modos. Na blogosfera, estou e tentando dosar meus textos, porque já senti a coisa. Liberdade de expressão em termos, temos que escrever o que querem ler, sem melindrar muito, pois não compreendem o que é arte. Um problema, uma mordaça. Muita vontade, querida, para continuar e não nos calarmos.
bj.
Ju, se já gostava tanto da tua escrita, a partir dessa leitura aqui passo a admirá-la ainda mais. É absurdo e lamentável que ainda existam percepções tão estreitas a respeito de tudo, mas sobretudo da arte, que não tem que obedecer a expectativa nenhuma. Você é o máximo! E a indignação tem que ser expressa com essa crueza, essa força, essa verdade.
Beijos
Acredito que ainda hoje existem "outras" fogueiras para quem ousa dizer o que pensa, principalmente quando o que pensa traz uma verdade que incomoda. Muitos pedaços são arrancados do ser humano quando algum deles é tão violentamente agredido na sua dignidade, na sua singularidade. Cabe-nos a atenção sensível para que não permitamos que nos arranque o que de nós é único. Muitos clitóris simbólicos são mutilados mesmo na nossa cultura.Tudo está interligado e quando mudamos isso repercute no todo. Que aprendamos a nos amar, nos respeitar e sermos verdadeiramente femininas, longe desse modelo grotesco que querem nos empurrar. Grande abraço.
Obrigada por me seguir, adorei seu blog e já estou te seguindo também...
Beijoooooo
***
VOCÊ É UM MÁXIMO!...[2]
Adoro sua realidade poéticamente descrita, sempre, sempre!
Sua intensidade e densidade!...
Seu 'eu' complexo que pede para ser exposto... não sufocado...
Beijos =)
Ju: é lógico que não se aceita isso em parte alguma; é crueldade, é loucura aos olhos do Ocidente. Mas infelizmente é dito como cultura, não só essa prática, mas tantas outras. Basta ver o que se faz em Mauritânia, não tão impactante, mas terrível, também. Na medida em que se extirpa algo do corpo, se mutila a alma, se mutila e agride uma sociedade inteira com respingos em todas as mulheres do mundo. É difícil de aceitar, difícil de ver, difícil de acreditar que isso possa existir neste século, ainda.
Entendo tua revolta; li muita coisa sobre isso, depoimentos de mulheres mutiladas que ficaram marcadas para sempre, sabendo-se que o que mais marca o ser humano é algo feito na infância.
Beijos.
Mais um texto poético bem reflexivo. Gostei muito, faz a gente inverter um pouco o pensamento padrão, tanto para os fatos da vida quanto para o estilo poético. É por isso que curto poesia e textos escritos em versos, são amplos e intensos...
Beijos pra ti e ótimas inspirações.
Tá na hora de sair o livro, hein...
A forma é ousada e o conteudo bem forte. Um quebrar de tabus, preconceitos e demais prisões sociais, religiosas e literárias.
Tudo somado, o resultado é excelente.
Parabéns querida amiga, a sua capacidade poética já vem de longe e recomenda-se...
Beijos.
Ju,
esse é um belo poema, sem dúvida, que conta uma realidade que pode não ser aceita por pessoas que foram educadas no rigor da moralidade falsa.
Mas o que importa, Ju, é que por trás da poesia está uma poeta de grande talento, disposta a expor-se em nome da arte.
Um dos maiores exemplos de uma sociedade que rejeita uma obra de arte, foi a norte-americana, que, no ano de 1922, impediu que a magistral obra de James Joyce, "Ulisses", fosse publicada, por entender tratar-se de um livro contra a moral e os costumes.
Abraços,
Pedro.
Passei para te deixar um beijo e votos de bom fds
Graça
A excelente poesia da realidade...saudades de vir ler, mas minha internet não tem cooperado comigo, logo isso vai mudar...
beijos, ótima semana
À Wanderley, Graça, Paula, Eliane, AC, Ana Lúcia, Tania, Rita, Luiza, Nadine, Taís, Luciana, Nílson, Pedro, Sonia...
muito obrigada pela visita e comentário.
Bjs e inté!
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