
A janela aberta é moldura para um céu pesado.
Já não é verde a lagoa,
nem azul o mar.
Ondas gigantescas orquestram este dia.
Elas vêm e jogam-se com violência
à areia que, – coitadinha! -,
ainda que não o deseje,
faz coro nessa ladainha.
A apreensão paira no ar…
Não se dilui com a chuva que cai
sobre a gente do lugar,
que segue em procissão,
pisando lama multicor, -
sofridos fiéis, confiando o peso de suas dores
àqueles deuses em estranhos andores,
e trazendo pelas mãos, ou carregando ao colo,
crianças… esperanças.
As montanhas estão cobertas
por uma névoa que não deveria estar ali.
É um dia cinza, sem qualquer mágica,
mas denso em feitiçarias.
Dia de caldeirões, de bruxarias,
de muitos pedidos e orações.
Dia em que todas as cores
têm qualquer coisa de neutras.
Aqui, ali, acolá… a dúvida.
A dúvida também é cinza.
Pode-se vê-la na expressão das pessoas,
senti-la em suas conversas ao pé do ouvido…
Véus… Mistérios.
Em fila, os fiéis aguardam
a hora da comunhão secreta.
Um por um, todos visitam
o improvisado confessionário.
Em mãos tantas divindades…
Para qual delas rezar?
São todos tão… santos!...
Como escolher um, dentre tantos,
sem que se caia em pecado?
Não há coroinhas,
mas um som irritante
põe fim à celebração.
E a procissão
serpenteia
o caminho de volta.
Ide, irmãos, em paz!
E que os senhores os acompanhem, -
na esperança, na necessidade,
na precisão, na vontade…
Agora é a vez do vento
que, em desafino,
tenta em vão
arremedar a voz do mar…
ju rigoni (sem registro de data)
Publicado em 2008 no Fundo de Mim
hospedado no wp.
Reta final para as eleições e alguns amigos
escrevem perguntando a quem darei meu voto,
embora já o tenha expressado em outros blogues
através de comentários.
Meu voto vai para Marina Silva.
Visite também
Dormentes, Medo de Avião, Navegando...




15 comentários:
Poderá o poeta renegar o que o rodeia? Claro que não. Daí a contundência da palavra, num desfile de crendice em estado primitivo.
Poderá haver beleza na contundência das palavras? Claro que sim, Este poema é a prova disso.
beijo :)
Me lembrei da procissão do Gilberto Gil, mas claro que sua referencia aqui é outra e a analogia é muita boa entre as crendices e as eleições.
beijos
Oi Ju
Seus poemas , são verdadeiras viagens, a gente consegue imaginar cada cena. Parabéns.
Bjux
Como diz o Wanderley, dá até pra imaginar as cenas... o mar, o balanço das ondas, a areia e o vento, no final, a imitar o barulho... Muito lindo! Uma viagem!
Beijos, Ju!
'Ide, irmãos, em paz!
E que os senhores os acompanhem, -
na esperança, na necessidade,
na precisão, na vontade…'
É sempre assim, não, Ju? E seguem, todos, nesta ilusão toda no meio do lamaçal. Um vai e vem em busca de alguma esperança difícil de alcançar.
Beijão, amiga.
"A dúvida também é cinza"
Linda esta porcissão que "serpenteia o caminho de volta"... Trarão paz e esperança?? O vento traz-lhes confusão na altura de escolher o santo! Eles são tantos...
Quem desvenda o mistério que os cerca? Já não sabem se rezam ou se vão antes pela bruxaria...
A névoa...há-de levantar-se e talvez a janela se abra...sobre um dia cheio de sol!
Ju, minha querida, um poema cheio de trocadilhos e subterfúgios aqui e além, para além das metáforas bem usadas.
Mas de ti, só se espera o óptimo!
Beijo
Graça
O poeta quando é bom, consegue transferir as coisas e ao invés de lermos o poema, ele é quem acaba nos lendo... Obrigada pela viagem. Quanto a Marina, também votarei nela e queria tanto poder acreditar num segundo turno com ela! Mas é quase impossível pelo que estou vendo, mesmo assim, votarei consciente. Bjs querida Ju.
A excelência poética das suas palavras deixa-me fascinado.
O final, é sublime:
"Agora é a vez do vento
que, em desafino,
tenta em vão
arremedar a voz do mar…"
Querida amiga, parabéns por mais esta pérola poética.
Beijos.
Querida
que vida cossida essa, nem tenho vindo te ver, no fundo....rsrsrs.
Essa coisa cinza, essa coisa que fica tudo sem cor, é muito trsite né, mas o coração tem destes períodos...
Ju, querida! Saudades do seu espaço maravilhoso! Seus poemas são lindos... eu adoro, pq aprendo muito lendo seus textos.
Olha, vim te convidar para conhecer o meu espaço novo. Ficarei muito feliz com a sua presença por lá.
Beijos e tenha um lindo fim de semana!
Juro que imaginei um curta metragem através do teu poema.
Um poema descritivo muito bonito, ao ler dá para nos sentir nesta procissão...
Obrigado por me visitar, espero que tenhas melhorado, que tua saúde esteja recuperada.
beijo, uma ótima semana
À AC, Angela, Wanderley, Luciana, Taís, Graça, Sonia, Nílson, Wal, Colecionadora, Bárbara, Sonia...
agradeço a visita e o comentário.
Bjs grande em todos. Inté!
Sabe, ao ler, me remeti a outras paragens, entre reais e fictícias. cidadezinha do interior, carregando sua devoção num andor florido, a cantoria monótona... um sabat iluminado de tochas, danças e augúrios... Santos, bruxos, mágicos, deuses... minha alma passeou até voltar ao momento presente. No nosso andor agora estão as urnas, que não são fúnebres, mas que poderão vir a ser...!
Obrigada, Lua. Pela visita e comentário. Bjs e inté!
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