Domingo, Abril 11, 2010

Helênica Madalena



Eu bato o ponto
batendo perna no porto…

Por algum trocado,
alivio o aperto
de quem passa no meu passar…
O ganho é um nada, -
meu maior salário é pago
em calote e porrada.

Aqui não é lugar de bacana;
não é o calçadão de Copacabana!…
Os braços que abraçam
são esculpidos na lida,
nos ferros pesados
da carga e descarga.

Sou limpa e cheirosa,
mas não há perfume
que amenize a catinga,
o suor do trabalho,
de quem me xinga
e espera de mim
sempre muito mais
do que eu posso dar.

E se o braço é forte
a porrada é bem dada, -
é a covardia
que me tira da rua,
me põe no hospital
e na delegacia.

Cliente vai, cliente vem…
Alguém, um dia,
vai me notar,
me amar de verdade,
e ao invés de vadia,
me chamar de “meu bem”,-
me dar o que essa vida
escondeu de mim,
me dizer que “sim”,
que eu posso sonhar
algum sonho, -
um homem só meu,
que me sustente,
e aos tantos filhos
que essa vida me deu.

Um dia me livro do meu cafetão
e vou fazer a vida no calçadão.
Garota de programa, ao invés de puta!…
Filhinhos de papai, magnatas,
estrangeiros,
com os bolsos cheios
de muito dinheiro…
Conquistar, – quem sabe? -
o meu próprio cais…

Com um pouco de sorte,
na zona sul
encontro o meu norte…

ju rigoni (Sem registro de data)


Imagem: Alexandre Almeida Fotografia


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12 comentários:

Lara Amaral disse...

Às vezes o sonhar nem é tão distante, é só um degrau a mais dentro do poço escuro que já se encontra.

Bom texto!

Beijo.

Wanderley Elian Lima disse...

Oi Ju
E ainda dizem que são mulheres de vida fácil. Quando, dor, quanto angústia , quantos sonhos reprimidos devem guardar essas mulheres. Lindo e real o seu poema.
Beijos

angela disse...

Bonito poema de vida triste e dura que se aguenta no sonho.
beijos

Luciana P. disse...

Essa é uma realidade de muitas mulheres, infelizmente.
Você retratou muito bem uma situação que envolve muita gente, algumas vítimas, outras nem tanto.
E assim se vive, sempre esperando o outro nascer do sol, quem sabe com um brilho diferente.
Lindo texto, Ju!
Beijos e ótima semana!

Tais Luso disse...

Oi, Ju:
Esta é uma de nossas tristes realidades junto com outras tantas que aparecem nos noticiosos diariamente. E pra justificar a vida difícil destas mulheres, os próprios abutres as chamam de 'mulheres de vida fácil'.

Nenhum de nós poderá julgar ou saber o porquê destas mulheres venderem seus corpos tão brutalmente.

Beijos
Tais

Geraldo de Barros disse...

Ju, gostei viu, lindo poema =)

beijo,
G.

Sonia Pallone disse...

Um lindo triste...Daqueles que tocam o coração da gente. Bjs.

Jac. disse...

Ju, de alma linda!
Estou sempre por aqui, visitando
suas palavras e suas emoções.
Meu carinho.

Nadine Granad disse...

Ju:

...sempre bom lê-la...

Poemas-críticos-realísticos... ;)

Uma belíssima semana!

Abraços carinhosos =)

A.S. disse...

Ju...

Tua poesia é linda, teu estilo é inconfundivel!


BeijOOO
AL

Graça Pereira disse...

Poema da vida, de uma vida dificil talvez sem sonhos... triste, mas lindo
Um beijo carinhoso
Graça

ju rigoni disse...

À todos, meu sincero agradecimento pela leitura e comentário.

Bjs e inté!